Uma das situações com que me vejo constantemente confrontada ao
trabalhar com crianças em idade de creche é o impedir e alterar determinados
comportamentos. Mas como fazê-lo sem o recorrer constante à negativa?
Podem pensar: “- Porquê parar de dizer ou evitar dizer
"Pára"?”.
Aqui estão algumas das razões porque:
As crianças pequenas não
podem parar. Elas não entendem esse conceito ainda, a única vez que elas param
é quando estão a dormir.
Então eu devo evitar dizer "pára", pois só vou
levar à frustração, tanto da minha parte como das crianças.
O que fazer quando as crianças estão a fazer algo que nós não
gostamos? Bem, mesmo que as crianças não possam parar, elas podem fazer outra
coisa. Então, em vez de dizer:
" - Pára de bater com a colher na mesa"
" - Pára de bater com a colher na mesa"
"-
Tu podes usar a colher para morder."
Em vez de dizer:
"Pára de mandar areia pelo ar"
"Pára de mandar areia pelo ar"
"Podes
por a areia num balde. "
Em vez de:
" Pára de tirar o brinquedo ao/à ..."
" Podemos encontrar um brinquedo que ninguém esteja a usar. "
" Pára de tirar o brinquedo ao/à ..."
" Podemos encontrar um brinquedo que ninguém esteja a usar. "
Quando uma criança está a interagir com outra criança de uma forma
que a última não gosta, também aí devemos tentar não dizer “pára”. Em vez
disso, tento ajudá-la a falar com a outra:
A Maria aparece e tenta agarrar o brinquedo do Miguel.
Miguel: - Uah! (Olhando
para mim)
Eu: Miguel, podes dizer: "Eu estou a brincar com isso agora."
Miguel: Estou a brincar com isto agora.
Maria: Uah!
Eu: Tu querias brincar com esse brinquedo?
Maria: (acena com a cabeça)
Eu: Porque não dizes, "Posso usar isso quando já não
quiseres?"
Maria: Posso usar isso quando não quiseres?
Eu: Miguel, podes dizer, "Podes usar isto quando eu já não
quiser."
Lógico que a conversa entre as crianças não é tão elaborada mas
penso que a mensagem pretendida foi passada.
Quando as crianças dizem "pára" umas às outras, eu
ajudo-as, traduzindo muito bem o que
"pára" significa. "Pára" significa "tirar as mãos. /
Largar."
Eu tento manter os ouvidos atentos e sempre que ouço uma criança
dizer "pára", viro-me para ver o que se passa, e lembro-os, se necessário,
" - Pára significa larga".
Se não o fizerem, eu
continuo, " -Parece que precisas de ajuda para largar o/a … desta vez."
Também devemos evitar dizer "Não faças isso". Porque
evitar usar a palavra não?
Nós todos pensamos por imagens,
as crianças ainda mais que os adultos. Se eu disser: "Não corras pela
rua," qual é a imagem que vem à cabeça?
Agora, e se eu disser:
"Por favor, nós vamos pelo passeio."
A palavra "não" é
um modificador que é muito fraco em comparação com a forte imagem criada pelo
resto da frase.
É por isso que, se nós dissermos
"Não saltes na poça", a uma crianças com dois anos de idade, esta irá
directamente para a poça de água pular nela, e irá ficar um pouco confusa com a
razão pela qual nós iremos ficar zangados ou frustrados.
O que tento fazer? A solução é exactamente a mesma que com o "pára".
Em vez de dizer o que eu não quero, digo o que eu quero que a
criança faça.
Se uma criança está a andar de triciclo, passa pelos seus amigos e
bate-lhes com o triciclo uma e outra vez, eu digo: " - Podes ir à volta
dos teus amigos."
E porque pensamos tão fortemente por imagens, eu também uso
imagens para criar um cenário na mente das crianças, dizendo-lhes como quero
que elas actuem em determinada situação: " - Quando eu abrir o portão,
todos vão caminhar calmamente e esperar do outro lado. "
Eu não espero necessariamente que elas se lembram e obedeçam, só
estou a plantar as sementes e a criar um cenário que ao longo do tempo dará os
seus frutos. Vou lembrá-las antes de cada passo, o que está prestes a
acontecer. Muitas vezes (a maioria das vezes) nem uso a palavra falada. Para
situações de rotina diária há uma canção que faz antecipar o momento que se
segue, e essa mesma canção é sempre repetida quando esse momento se aproxima.
Porquê não dizer "não".
Porque evito dizer 'não'.
Eu evito dizer não, porque
as crianças ouvem-no o tempo todo, e ele perdeu a sua eficácia ao ser usado em
excesso.
O que tento fazer quando uma criança precisa de uma palavra que
sirva de substituição rápida para impedi-la de fazer algo?
Muitas vezes, bater palmas duas vezes ou começar a cantar uma
canção, isto surpreende-as e cria uma pausa suficiente que os leva a esquecer
do que iam fazer.
E quando uma criança pergunta se pode fazer determinada coisa, eu
tento dizer Sim.
Se estou ocupada com algo e uma criança me pede para fazer algo
para o qual precisa ajuda eu digo: "- Sim. Eu vou ajudar-te assim que eu
terminar o que estou a fazer ".
Se a criança se queixar de que ela quer fazer agora, podemos
resolver o assunto em conjunto sem entrar em grandes explicações ou discussões.
"- Podias pedir ajuda a um amigo, ou tentar fazê-lo sozinha.
Ou então brincar com outra coisa até que eu tenha terminado".
Se a criança pede algo, e a resposta irá ser sempre não, então
tento também dizer-lhe o que ela pode fazer. Como por exemplo:
"- Tu hoje podes ficar com a bola vermelha"
Se isso for uma decepção tento ser compreensiva, ou então dizer
"sim" usando a imaginação
"- Se eu tivesse outra bola verde, eu dava-ta, com certeza!"
Eu tento usar alternativas criativas e segui-las. Se a crianças
continuar a insistir, o que acontece
frequentemente nos dias de hoje, pois a capacidade de espera é algo que se está a perder. Entro numa
conversa que a tente dissuadir da ideia:
Eu: "-Na verdade, se eu tivesse duas bolas verdes, eu teria
uma para ti e uma para mim. E se nós tivéssemos três bolas verdes, a quem daríamos
a terceira?”
Criança: “- E se tivéssemos uma sala cheia de bolas?”
Eu: “- Poderíamos levá-las para o jardim e dar uma a cada criança!
Ia ser muito divertido. Vamos ver quem está no jardim? "
E aí a insistência por certo desapareceu.
Conclusão?
A razão pela qual eu tento evitar dizer pára, não faças isso e não, não é porque vou destruir a
auto-estima da criança, apesar de por certo ser um inibidor da criatividade e da
capacidade exploratória, mas isso poderemos falar noutra altura.
Faço-o simplesmente porque é significativamente mais eficaz do que
as alternativas, e essencialmente porque gosto mais do tempo que passo com as
crianças quando não estou a dizer não o tempo todo!
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