Ainda não tinha tido tempo de me dedicar ao meu novo blog, mas ao ler o artigo na Pública este fim-de-semana, e depois de ler este senhor que se segue ( ao qual não resisti responder ) pensei... Heis algo que eu quero falar no meu blog!
O artigo que se segue é uma cópia integral do blog http://blog.fundacaorespublica.pt/?p=473
"Porque o futuro do Estado social depende de “enfiarmos” as crianças na escola
1. Como não podia deixar de ser, o facto de a CONFAP ter anunciado a sua proposta para que as escolas do 1.º ciclo estejam abertas 12 horas por dia tem provocado alguma polémica (cf. a reportagem de sábado do jornal “Público”). Porém, antes que o debate fique entregue ao moralismo habitual - de que os pais se “demitiram” de ensinar os filhos; de que, com o aval do Governo, querem transformar as escolas em “depósitos” de crianças, etc. - é importante termos elementos para uma análise mais fria, racional e alargada dos problemas em questão.
2. O epicentro da polémica tem estado nas relações entre a família e a escola. Esta é uma visão parcelar e desloca o problema para o terreno dos “costumes” e das pedagogias em detrimento da relação entre a família e o mercado de trabalho, perspectiva sem a qual reduzimos esta discussão a uma “guerra cultural”.
3. Atente-se no quadro seguinte, tirado deste estudo da OCDE: Babies and Bosses (tabela 3.2.)
Da sua observação sobressaem elementos importantes:
- a taxa de emprego das mulheres em Portugal com filhos entre os 0 e os 16 anos é alta quando comparada com a maioria dos países da OCDE ficando apenas atrás, claro, do cluster nórdico, cujos valores são impressionantes, e não distante do Canadá, Holanda e Suíça.
- Portugal sobe para o 4.º lugar, não longe do trio da frente (Suécia, Dinamarca e Holanda) nas mulheres cujo filho mais novo tem até 2 anos de idade. Este é um excelente resultado, mas talvez seja o outro lado da nossa baixa taxa de fertilidade (ver tabela 1.1. aqui).
- mais: Portugal mantém o quarto lugar quando olhamos para a taxa de emprego das mulheres cujo filho mais novo tem entre 3 e 5 anos. Ultrapassamos a Holanda, mas somos deixados para trás pela Finlândia, que se junta à Suécia e à Dinamarca no topo.
- ora, é na faixa etária entre os 6 e os 16 anos (isto é, o intervalo etário correspondente à frequência da escolaridade obrigatória) que Portugal, mantendo uma performance muito apreciável, cai na tabela. O valor de 65,4% cifra-se inclusivamente abaixo da média da OCDE, quando nas categorias anteriores o valor nacional era bem mais elevado. E só a Bélgica, o Luxemburgo e a Espanha partilham connosco este estranho padrão. Em todos os outros países as mães cujo filho mais novo tem entre 0 e 2 anos apresentam uma taxa de emprego inferior às mães cujo filho mais novo tem entre 6 e 16.
Como justificar esta quebra? Não tenho uma explicação imediata, e seria necessário olhar para dados mais desagregados – sendo certo que estão aqui em presença várias forças que uma única variável não pode captar. A verdade é que não é todo absurdo pensar que a melhoria das condições da guarda de crianças a partir dos 6 anos – isto já foi em boa medida conseguida com as actividades de enriquecimento curricular gratuitas no 1.º ciclo (atenção: estes dados são relativos a 2005, antes dessa medida ter sido tomada) – daria outras condições às mães para entrar no mercado de trabalho. É que se partilhamos com os países nórdicos elevadas taxas de emprego das mães, não partilhamos de todo «the comprehensive public support systems, such as parental leave, childcare and out-of-school hours care».
4. Num outro trabalho da OCDE lê-se: «Reforms that encouraged an increase in the number of two-earner families on average would have a stronger effect on reducing child poverty, and there could be significant falls in Greece, Italy, Mexico, Poland, Portugal and Spain. This suggests that in these six countries reforms to encourage employment among partners in single income families should be particularly encouraged.» (p.36). Ou seja, a entrada no mercado de trabalho do segundo cônjuge tem, num país como Portugal, um poderoso impacto na redução da pobreza de adultos e crianças.
5. O bem-estar dos indivíduos e das famílias, por um lado, e robustez das políticas inscritas num Estado social sustentável, por outro, dependem da criação de círculos virtuosos entre políticas e dinâmicas sectoriais distintas mas interdependentes. Se muitos olham o Estado social dos “30 anos gloriosos” como uma história de sucesso por essa Europa fora (e foi-o, em grande medida), foi porque aquele estava assente em dinâmicas auto-propulsoras que o alimentavam de forma estável – até atingirem o seu limite, embatendo num certo tecto económico e/ou político.
Hoje, sabemos que sem maximizar o emprego não teremos base fiscal que sustente a médio prazo o financiamento das políticas sociais; que não teremos altas taxas de emprego se a vida familiar dificultar a entrada dos indivíduos no mercado de trabalho; que uma parte dessas dificuldades está associada à dificuldade que muitos pais sentem relativamente à guarda das crianças; e que se a sociedade não encontrar uma forma de resolver este problema, terá provavelmente que escolher entre ter altas taxas de emprego (feminino) e baixas taxas de fertilidade, ou baixas taxas de emprego (feminino) e altas taxas de fertilidade (não sendo de excluir o pior dos mundos, no qual as baixas taxas de emprego (feminino) se juntam às baixas taxas de fertilidade, como nos caso da Hungria, da Espanha ou da Itália). O círculo virtuoso que é indispensável criar pretende evitar que tenhamos que escolher entre uma coisa e outra. Os países nórdicos, por exemplo, conseguiram-no.
6. Até que esta ideia faça o seu caminho no debate público e político, é preciso devolver alguns elementos aos críticos, em particular àqueles que se colocam à esquerda do Governo. Sim, talvez - talvez - o facto da criança passar 12 horas na escola possa ter um lado negativo para o seu desenvolvimento equilibrado. É uma hipótese em aberto, relativamente à qual é provável que os pedagogos nunca cheguem a um consenso. Ora, no plano do “talvez” não é difícil imaginar que essas horas na escola “roubam” tempo que em casa seria passado em frente da televisão ou a jogar Playstation – actividades que o mais pedestre aprendiz de pedagogo dificilmente terá como um modelo de desenvolvimento das crianças. Se os pais são uns “irresponsáveis” que se demitem de educar os filhos abandonando-os na escola, é improvável que se transformem nos mais virtuosos progenitores apenas porque têm que passar mais tempo com os filhos – muitos sem saber o que “fazer” com eles. E a televisão e a Playstation são óptimas soluções, entre outras, para dar largas à demissão parental. Não pretendo moralizar – mas tão só relativizar a ideia de que se não fosse a “escola-depósito”, de repente o milenar problema da socialização dos mais novos elementos da sociedade estaria bem resolvido.
O fundamental desta discussão, por muito que custe aos críticos de esquerda, é que na vasta maioria das famílias portuguesas os dois elementos adultos do agregado familiar têm de (e querem) trabalhar. O que pretendem os críticos: que um deles decida ficar em casa e viver com ainda mais dificuldades económicas? E quando sabemos que é quase sempre a mulher que abdica da inserção profissional, é este o modelo familiar que queremos promover? Para mais, não vejo por que motivo as escolas têm que ser “depósitos” de crianças nem por que motivo é que, para usar a expressão de Francisco Almeida, da Fenprof, as crianças tenham de estar “enfiadas” na escola. Estar na escola é assim tão mau? É um sacrifício tão gigantesco? As actividades que lá têm lugar são assim tão inúteis e tão pouco dignificantes? É estranho que um sindicato de professores olhe para a realidade escolar com tanto miserabilismo. E a Fenprof fala por quem? Pelas crianças? Pelos pais – e por que pais? Assim de repente, não me parece que fale pelos que precisam que o Estado e as escolas assegurem a guarda de crianças até ao final do seu dia de trabalho: a enorme fatia das classes trabalhadoras e médias.
Elogie-se, porém, a coerência: para a Fenprof, não é escola que tem quem mudar. Não: é a sociedade que tem que mudar para se adaptar ao modelo de escola que a Fenprof defende. O ónus da mudança, sabemos, nunca reside na organização ou nos profissionais – pagos com dinheiros públicos, convém lembrar de vez em quando, com o risco de ferir algumas susceptibilidades - mas na “sociedade”: essa nebulosa galáxia constituída pelas empresas, pelas famílias, pelo Estado, e claro, pelo “modelo económico” (leia-se “capitalismo”). Como entretanto ninguém tem soluções de varinha mágica e a crise obriga a mais sacrifícios por parte dos indivíduos/famílias e das empresas, essa “grande mudança estrutural” que a Fenprof pretende não chega, e a sua argumentação redunda em conservadorismo, no melhor dos casos, ou em hipocrisia, no pior. Para que as crianças não fiquem «enfiadas» nas escolas, talvez a Fenprof prefira, por exclusão de partes, que um dos cônjuges (mas e o que fazer no caso das famílias monoparentais?) não trabalhe – ou trabalhe menos horas -, o rendimento dos agregados familiares diminua, e com isso aumentem o seu risco de pobreza e as desigualdades sociais. É sempre bom saber quais as prioridades de cada um. "
hugo.santos.mendes@gmail.com
Caro senhor,
Apresento-me como mãe, educadora e um bocadinho conhecedora da realidade social e escolar da Europa e de Portugal.
O seu comentário baseado em estatísticas é completamente descabido, e não me leve a mal, eu vou passar a explicar.
Estamos a falar de crianças-seres humanos e mães-seres humanos, não estamos a falar de coisas quantificaveis! A verdade dos números para si, é para mim, que sou mãe, educadora e conhecedora das diversas realidades existentes na europa totalmente diferente. A relação da família com o mercado de trabalho da qual fala não é linear nem preto no branco, tem uma série de variantes que faz com que as suas estatísticas não passem de isso mesmo, números.
“ a taxa de emprego das mulheres em Portugal com filhos entre os 0 e os 16 anos é alta quando comparada com a maioria dos países da OCDE ficando apenas atrás, claro, do cluster nórdico, cujos valores são impressionantes, e não distante do Canadá, Holanda e Suíça. “
Diz que nós temos uma taxa alta de emprego mas temos porque necessitamos e de outra forma nos seria impossivél sustentar uma família, como tão bem refere mais à frente no seu artigo. Mas equiparar com a realidade nórdica é ridiculo, não existe comparação possivél !
Sim as mães nórdicas trabalham, mas trabalham a meio tempo, a quarto de tempo, têm um ano de licença de maternidade e a escola em qualquer país nórdico fecha às 4 da tarde o mais tardar e nenhuma criança está mais do que 6 horas na escola ou os pais são chamados à atenção, e as maioria das escolas são públicas! Por isso têm uma taxa alta de emprego feminino porque para o mesmo lugar têm duas mulheres/pessoas a trabalhar e assim se reduz a taxa de desemprego e se aumenta a qualidade de vida.
Este é um dos muitos pontos em que não é possivél olhar para as estatísticas e perceber o que quer que seja a não ser que se saiba do que se está a falar, o que não me parece o seu caso.
Acha que “(...)mais: Portugal mantém o quarto lugar quando olhamos para a taxa de emprego das mulheres cujo filho mais novo tem entre 3 e 5 anos. Ultrapassamos a Holanda, mas somos deixados para trás pela Finlândia, que se junta à Suécia e à Dinamarca no topo.” Sabe em que condições? Mais uma vez está a comparar países em que os horários, regalias e condições de trabalho nada têm em comum com a realidade portuguesa. As mães nos países nórdicos não trabalham 10 horas por dia, não passam duas horas no trânsito, não têm de pagar a escola dos filhos! As mães nos países nórdicos colocam os filhos primeiro, o trabalho em segundo e olhe para eles e olhe para nós! Elas não só trabalham menos como trabalham! O tempo de trabalho é realmente produtivo. Nós temos de por o trabalho primeiro porque não há creches do estado, porque qualquer colégio custa uma fortuna, e nós precisamos deles porque são os únicos que nos permitem fazer as horas que o patrão acha que devemos independentemente se o trablaho já esta feito ou não, porque vivemos numa sociedade de aparencias que trabalhamos muitas horas mas produzimos, na realidade, muito pouco!
Mas ainda falta falar do enriquecimento curricular “qual enriquecimento?”, o senhor conhece a realidade da maioria das actividades extra? Acha que é normal as crianças terem uma série de eactividades como educação física e artes fora do curriculo, são extras? Onde está a educação da criança no seu todo? Mas na realidades, não se pode enquadrar artes e desporto no currículo quando a maioria das escolas não tem um ginásio ou dinheiro para material, já para não falar de um palco para teatro, etc,etc, etc. Mas como agora são actividades extra-curriculares não tem importancia que não existam infraestruturas e que as crianças ao fim do dia vão jogar futebol,ou outro desporto qualquer, com a roupa que têm vestida e com ela vão para casa, porque nem balneários temos na maioria das escolas.
Sim é importante ter dois pais a trabalhar para diminuir a pobreza infantil, mas dois pais a trabalhar que cheguem a casa e tenham tempo de fazer os trabalhos com os filhos, de ir com eles praticar as verdadeiras actividades extra-curriculares, e fazer coisas tão simples como ir ao parque brincar, ou visitar amigos ou familiares. Não pais que trabalham dez horas por dia, passam duas horas no transito e chegam a casa e têm o quê? Duas horas para estar com os filhos, uma? Sim porque uma criança precisa de dormir pelo menos, 10 horas, por dia! ( Aqui poderia entrar nas ditas crianças hiper activas, mas nem vou por aí! )
Faço-lhe uma pergunta, é pai? Depois continuo, quando me responder.
Mas penso que o senhor e o nosso governo não podem olhar para o futuro do país como números e os usá-los para comparar com quem olha para o futuro do seu país com seres humanos.
Desculpe se o ofendi, mas penso que precisa de se informar antes de falar daquilo que não sabe!
Excelente post e muito bom comentário ao artigo. Obrigada pela partilha!
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